INTRO
Aquela estava sendo a primeira vez em que eu estava cogitando como verdadeira a existência de anjos. Minha vida já não valia mais nada. A dúvida se aquilo era morte ou não não me incomodava nem um pouco, mas se fosse morte, que continuasse assim; pois a sensação de alívio, aliado ao meu prazer imensurável, não se era possível descrever. Uma leveza da alma me dominou de uma maneira que fiquei envolta pela magia e cores daquelas luzes - nunca vistas por mim no mundo físico - que explodiam diante meus olhos. Uma silhueta se formou proveniente de um feixe de luz (o mais intenso de todos) como um raio cortando o vento, e se materealizando na minha frente. Parecia que eu estava desabando em um buraco profundo. Minhas entranhas reviravam e contorciam, porém, sem dor. De repente senti um estrondo - pior que uma tonelada de dinamites! -, tudo tremer e virar, e um choque terrível no peito. Tudo sumira. Gitos desesperados tomavam conta da minha paz, e todo aquele céu que parecia estar diante de mim, desapareceu. As batidas do meu coração retomavam, e as queimaduras no meu peito começavam a arder como na vida real. Tudo ainda estava muito embaçado, e a única coisa que consegui ler na minha visão precária foi "Dr. Naffari'', no jaleco branco que o médico usava. Logo ouvi os gritos histéricos de minha mãe do outro lado da parede, e aquele tumulto aparente estava me fazendo mal. Tudo se acalmou instantaneamente - não por acaso - , e o médico, um homem bonito , de uns 34 anos, sentou na beirada da cama, esperando eu dar os primeiros sinais.
- Por que? - simplesmente indaguei.
- Qual é a dúvida? - rebateu receoso.
- Eu quase perco a vida e acordo nessa cama com os gritos agudos da minha mãe, com você olhando pra minha cara, e quer que eu não tenha dúvidas?
- É pra ser direto? Você e aquela sua amiga saíram ontem, e quando estavam voltando da festa foram esmagadas por um caminhão em um cruzamento. Defino isso como milagre. - falou, franzindo a testa, com um ar de nervoso.
Paralizei. E nem era efeito da notícia - que ainda não havia sido digerida -, mas sim quando percebi que a silhueta de antes estava materializada na quina da parede. A única coisa daquele paraíso que ainda restava naquele quarto horroroso de hospital. E sim, era um pedaço do paraíso. Nunca havia visto pessoa mais perfeita em toda minha vida. Eu entrei num estado de extase profundo. Os olhos castanhos enigmáticos tinham mais efeito que hipnose. E claro, eu estava hipnotizada. Eu não sabia se era fruto da minha imaginação, mas provavelmente não era. Não teria capacidade de imaginar tamanha beleza. E ele estava lá, como um anjo - mas sem as asas! - , com uma das pernas apoiada na parede, me olhando fixamente, com um ar de despreocupado, e com uma leve luz em torno de si, que, naquele momento, nem me intrigara. O cabelo castanho escuro despojado dava um contraste com os traços perfeitos de seu rosto, aliado ao seu corpo angelical. Calça jeans sem camiseta era o traje ideal para um anjo?
Me toquei que havia deixado o Dr. Naffari falando sozinho quando minha mãe, desesperadamente, voltou a gritar e entrou de uma vez no quarto. Foi a única coisa que me fez virar a cabeça.
- Seus gritos estão cada vez mais altos, Dona Carli. - Parabenizei minha mãe pelo aumento gradativo no tom de voz.
- Graças a Deus! Você não sabe o quanto eu chorei por você, Lila. Tomei caixas de calmante essa noite, e seu pai não pára de chorar! - ela disse aos prantos, e se debruçando em mim.
- Ok, mãe. Obrigado pela preocupação, você não muda. Mas você está me machucando. - falei.
- Ai, meu Deus! Me desculpe, querida! - falou afobada.
- Tudo bem, mãe.
- Estão todos lá fora querendo te ver! O seu namorado está desesperado, coitadinho...
A palavra ''namorado'' fez com que eu me virasse instantaneamente para o canto da parede. Ele não estava mais lá. Havia evaporado. Minha cabeça girava. O desespero tomava conta de mim.
-Agora descanse um pouco, você precisa de repouso. - Alertou o Dr.
Não pensava mais em nada que não fosse a tal criatura da luz. Eu estava em extase. Precisava de um contato com ele. Mas logo os sedativos fizeram efeito, encostei a minha cabeça na cama e dormi. Tive um sono pesado e intenso. Passei mais dois dias no hospital, e voltei para a minha casa. Vamos às apresentações: meu nome é Lindsey Carli, tenho 17 anos, e preciso mais que a minha própria vida reencontrar aquele ser.