sábado, 18 de julho de 2009

INTRO

Aquela estava sendo a primeira vez em que eu estava cogitando como verdadeira a existência de anjos. Minha vida já não valia mais nada. A dúvida se aquilo era morte ou não não me incomodava nem um pouco, mas se fosse morte, que continuasse assim; pois a sensação de alívio, aliado ao meu prazer imensurável, não se era possível descrever. Uma leveza da alma me dominou de uma maneira que fiquei envolta pela magia e cores daquelas luzes - nunca vistas por mim no mundo físico - que explodiam diante meus olhos. Uma silhueta se formou proveniente de um feixe de luz (o mais intenso de todos) como um raio cortando o vento, e se materealizando na minha frente. Parecia que eu estava desabando em um buraco profundo. Minhas entranhas reviravam e contorciam, porém, sem dor. De repente senti um estrondo - pior que uma tonelada de dinamites! -, tudo tremer e virar, e um choque terrível no peito. Tudo sumira. Gitos desesperados tomavam conta da minha paz, e todo aquele céu que parecia estar diante de mim, desapareceu. As batidas do meu coração retomavam, e as queimaduras no meu peito começavam a arder como na vida real. Tudo ainda estava muito embaçado, e a única coisa que consegui ler na minha visão precária foi "Dr. Naffari'', no jaleco branco que o médico usava. Logo ouvi os gritos histéricos de minha mãe do outro lado da parede, e aquele tumulto aparente estava me fazendo mal. Tudo se acalmou instantaneamente - não por acaso - , e o médico, um homem bonito , de uns 34 anos, sentou na beirada da cama, esperando eu dar os primeiros sinais.
- Por que? - simplesmente indaguei.
- Qual é a dúvida? - rebateu receoso.
- Eu quase perco a vida e acordo nessa cama com os gritos agudos da minha mãe, com você olhando pra minha cara, e quer que eu não tenha dúvidas?
- É pra ser direto? Você e aquela sua amiga saíram ontem, e quando estavam voltando da festa foram esmagadas por um caminhão em um cruzamento. Defino isso como milagre. - falou, franzindo a testa, com um ar de nervoso.
Paralizei. E nem era efeito da notícia - que ainda não havia sido digerida -, mas sim quando percebi que a silhueta de antes estava materializada na quina da parede. A única coisa daquele paraíso que ainda restava naquele quarto horroroso de hospital. E sim, era um pedaço do paraíso. Nunca havia visto pessoa mais perfeita em toda minha vida. Eu entrei num estado de extase profundo. Os olhos castanhos enigmáticos tinham mais efeito que hipnose. E claro, eu estava hipnotizada. Eu não sabia se era fruto da minha imaginação, mas provavelmente não era. Não teria capacidade de imaginar tamanha beleza. E ele estava lá, como um anjo - mas sem as asas! - , com uma das pernas apoiada na parede, me olhando fixamente, com um ar de despreocupado, e com uma leve luz em torno de si, que, naquele momento, nem me intrigara. O cabelo castanho escuro despojado dava um contraste com os traços perfeitos de seu rosto, aliado ao seu corpo angelical. Calça jeans sem camiseta era o traje ideal para um anjo?
Me toquei que havia deixado o Dr. Naffari falando sozinho quando minha mãe, desesperadamente, voltou a gritar e entrou de uma vez no quarto. Foi a única coisa que me fez virar a cabeça.
- Seus gritos estão cada vez mais altos, Dona Carli. - Parabenizei minha mãe pelo aumento gradativo no tom de voz.
- Graças a Deus! Você não sabe o quanto eu chorei por você, Lila. Tomei caixas de calmante essa noite, e seu pai não pára de chorar! - ela disse aos prantos, e se debruçando em mim.
- Ok, mãe. Obrigado pela preocupação, você não muda. Mas você está me machucando. - falei.
- Ai, meu Deus! Me desculpe, querida! - falou afobada.
- Tudo bem, mãe.
- Estão todos lá fora querendo te ver! O seu namorado está desesperado, coitadinho...
A palavra ''namorado'' fez com que eu me virasse instantaneamente para o canto da parede. Ele não estava mais lá. Havia evaporado. Minha cabeça girava. O desespero tomava conta de mim.
-Agora descanse um pouco, você precisa de repouso. - Alertou o Dr.
Não pensava mais em nada que não fosse a tal criatura da luz. Eu estava em extase. Precisava de um contato com ele. Mas logo os sedativos fizeram efeito, encostei a minha cabeça na cama e dormi. Tive um sono pesado e intenso. Passei mais dois dias no hospital, e voltei para a minha casa. Vamos às apresentações: meu nome é Lindsey Carli, tenho 17 anos, e preciso mais que a minha própria vida reencontrar aquele ser.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Batatinha quando nasce

BATATINHA QUANDO NASCE

Eu nunca fora muito bom com as palavras. Naquela hora não conseguia imaginar qualquer verso que não se assemelhace a uma magnífica rima infantil. Expressar o que eu estava sentindo estava virando tão complicado quanto uma fórmula de Química Orgânica. Valha-me, Deus. Levantei-me de minha cama fria e fui para a sacada - me castigando no inverno curitibano. Na verdade o frio já não me atingia. A lua oscilava o seu brilho entre o nevoeiro, e a rua era silenciosa, vazia. Apenas o barulho do cão sem dono procurando comida em uma lata de lixo entrava em meus ouvidos. Insônia? Mal sabia que horas eram. Dei minha última súplica: ó, flor do lácio, me presenteie com o mais belo perfume de seu buquê, para que eu possa, sem exitar, encantar o meu amor. Venha logo, inspiração. Preciso descansar.

Tic-Tac, adeus.

TIC-TAC, ADEUS.

Eu estava tonto. Ainda não sabia se era efeito da noite que passei em claro ou o forte perfume que exalava da nuca de minha irmã. O café, que em instantes atrás descera queimando minha garganta, já estava gelado como minha'lma. O barulho do velho relógio na parede não me incomodava mais. De modo que em algum momento me irritara profundamente. O salto alto martelando os velhos tacos de madeira da casa de minha avó anunciava a chegada de Laura, minha irmã - agora éramos só nós.
- Vamos? - Ela disse, limpando o sombrio batom no canto dos lábios.
-Sim. - Falei, espantado com sua elegância.
Laura usava um vestido negro, com bordados em cada pedaço de pano que se era visível aos olhos. Estes, cheio de lágrimas por escorrer. O café já não fazia tanto efeito.
Fomos em meu carro, feito cortejo fúnebre. O silêncio era sábio. Ao menos eliminava qualquer chance de se falar algum inconveniente. O ronco do motor assemelhava-se a uma sinfonia. Enquanto isso, Laurinha se distraía com a clareira meio aos carvalhos no caminho.
-Chegamos. - Disse ela, com uma voz firme - pela primeira vez em 24h.
Não disse nada. Apenas estacionei e seguimos de mãos atadas até a capela. Era hora de ser forte. Parecíamos dois coitados, com milhares de olhares piedosos em nossa direção. Respirei fundo e entrei: lá estava papai, charmoso como sempre, com um cravo vermelho na lapela de seu paletó, em um caixão de madeira fresca - como sempre quis ter. A aparência pálida não mudava, de jeito nenhum, a eterna imagem do meu pai-herói que guardarei comigo até o resto de meus dias. Meu mundo paralizou naquele momento. A única coisa que conseguia me enjoar era o forte cheiro de café que pairava naquela sala.
Laurinha estava lá, firme e forte segurando a mão do papai, nosso Santo Antônio, guerreiro e fiel. Vovó, quem diria, estava enterrando mais um filho. Tinha a fibra e garra das pessoas vividas, mas lamentava muito, com lágrimas sinceras, a partida do seu moleque Toninho. Ainda parado, perdi a noção do tempo. Só havia percebido, e me incomodado muito, que a única coisa viva dentro daquele caixão era o fino ponteiro de seu relógio; que, por ironia, anunciava o atraso de seu enterro. Minha irmã, por sua vez, o tirou cuidadosamente do pulso gelado e colocou em sua bolsa. Uma última lembrança? Pode ser. Em seguida, pediu silêncio, fez uma profunda e emocionada oração, proferiu um belo discurso, e já não era possível esperar. O carrinho que levava papai até o túmulo tinha suas rodas enferrujadas, fazendo um barulho irritante, aliado às folhas secas de outono, que serviam como um tapete fúnebre. Uma cova funda o esperava, exatamente da maneira que ele queria. Ao som de saudosos aplausos papai se foi. Levantei-me a cabeça. Era hora de partir.

O Mistério de Marioto

Esse é um texto que escrevi para o projeto "Conta aí, parceiro" do Positivo. A proposta era fazer parceria com grandes nomes, como Jairo Bouer e Pedro Bandeira. Eram dados pequenos começos de textos, e você tinha que prosseguir. "O Mistério de Marioto" é um texto que escrevi dando sequência a um trecho de início do Pedro Bandeira.

O MISTÉRIO DE MARIOTO

Eu estava só. No meio daquela multidão, eu me sentia só como de caminhasse pelo deserto, perdida de alguma caravana de camelos. O trânsito arrastava-se aos trancos, congestionado, buzinava, freava bruscamente frente a sinais fechados, avançava sobre as faixas de pedestres... Passantes apressados quase esbarravam em mim, desviavam-se, talvez pensando no pecado que era uma garota como eu cambalear bêbada pela avenida àquela hora da tarde. Mal sabiam eles que eu jamais havia bebido um copo de coisa alguma em toda a minha vida, mas que eu, eu, tão jovem, tinha de... Ah, eu, tão jovem e com uma carga daquelas nas costas!
Procurei aprumar o passo, lutando contra a exaustão e sacudindo a cabeça para afastar a falta de sono. Ah, como a vida de alguém tão importante poderia depender do que fizesse uma garotinha como eu, apenas uma menina do colegial, inexperiente de tudo e... Eu chegaria em tempo?
A carta, já úmida de suor, quase me queimava a palma da mão.
Parecia que o conteúdo que compunha as desordenadas linhas naquele papel realmente estavam pegando fogo. Ou era a minha febre que começara a dar os seus primeiros sinais. O movimento árduo que minhas pálpebras faziam não eram em vão... O sol de fim de tarde emitia um feixe de luz exatamente no centro dos meus olhos. Pelo menos era o que parecia. Já não aguentava mais os barulhos daquela nojenta avenida, que constantemente me faziam revirar as piores lembranças da minha memória. O logradouro informava um lugar onde eu jamais fora antes; pelo menos, não que me lembrasse. Afinal, aquela gigantesca cidade nada mais era do que um emaranhado de ruas com uma pitada generosa de caos urbano. Minhas pernas estavam no ápice do desconforto. Eu tinha como certo a minha inocência. Não havia sido eu. Tudo aquilo era desnecessário. Me consideraria até um prodígio juvenil caso fosse a autora do ato. A sociedade alienada e burra me irritava. Odiava ter que explicar o óbvio. Um andarilho que comia na calçada me explicou como chegava ao meu destino, e assim o fiz. Não tinha noção nenhuma de tempo, mas pelo aumento gradativo das minhas dores musculares, presumo que demorei mais vinte minutos para chegar. O local não condizia em nada com as minhas expectativas. A rua estreita e deserta estava com metade das luzes que vinham dos postes apagadas. Aquele caminho desembocava em uma velha e suja porta. A fiação elétrica estava toda desgastada, e não tive coragem de apertar a campainha. Comuniquei a minha chegada aos berros, mesmo. Não demorou para que os grunhidos da velha escada de madeira começassem a ecoar naquele beco. O ritual de anos continuara o mesmo - agora em novo endereço: a luz de fora era acesa, a cortina da porta era afastada, e o olhar desconfiado analisava quem estava ali. As rugas desta vez estavam bem mais aparentes. O bolero que vinha do interior do casebre fazia contraste com o cheiro podre que impregnava o andar de cima. Logo entrei, pois queria acabar logo com aquilo. Tirei a carta do bolso, que naquela altura estava amassada e molhada de suor, e a entreguei para a Madame, como quem pede alguma satisfação. Nada foi dito. Madame Marioto subiu e me deixou somente com os barulhos das gotas de água quente explodindo na espessa borra de café. O cheiro desagradável que vinha do andar de cima era vagarosamente maquiado com o inconfundível aroma da cafeína. Logo Marioto retornou, para meu desagrado. Não hesitou em espalhar as velhas fotografias em cima da mesa. Eu insistia em dizer que nenhum daqueles eram meus conhecidos.
Ela queria ter certeza da minha afirmação. Tinha de ter certeza. Aliás, não queria que eu sofresse um grande baque. Logo disse que a tal acusação da carta era apenas uma desculpa forjada, pois sabia do meu instinto de defesa e tinha certeza que eu iria brigar para provar o contrário. Minha presença bastava. Não naquele momento. Minha ansiedade era tão grande que acabei mordendo a parte inferior do meu lábio até sangrar. Teria ido embora se a porta não estivesse trancada. Um berro fez com que Madame rapidamente corresse novamente para o segundo andar. Fui junto. Era melhor que não tivesse ido. Parei na metade da escada. O cheiro me impedia de continuar a subir os velhos degraus. Marioto me puxou para junto dela. O rastro de sangue que seguia continuamente da parede em direção ao quarto era espantoso. Um bando de corpos em estado de putrefação me deixou em estado de choque. O estado perfeito para que Marioto me atacasse com um só golpe e me deixasse apodrecendo junto aos outros corpos, que, diferentes do meu, estavam gelados. Só pude escutar berros do lado de fora, os grunhidos da velha escada, a luz sendo acesa, e um corpo ofegante no andar de baixo. O ciclo recomeçara.