TIC-TAC, ADEUS.
Eu estava tonto. Ainda não sabia se era efeito da noite que passei em claro ou o forte perfume que exalava da nuca de minha irmã. O café, que em instantes atrás descera queimando minha garganta, já estava gelado como minha'lma. O barulho do velho relógio na parede não me incomodava mais. De modo que em algum momento me irritara profundamente. O salto alto martelando os velhos tacos de madeira da casa de minha avó anunciava a chegada de Laura, minha irmã - agora éramos só nós.
- Vamos? - Ela disse, limpando o sombrio batom no canto dos lábios.
-Sim. - Falei, espantado com sua elegância.
Laura usava um vestido negro, com bordados em cada pedaço de pano que se era visível aos olhos. Estes, cheio de lágrimas por escorrer. O café já não fazia tanto efeito.
Fomos em meu carro, feito cortejo fúnebre. O silêncio era sábio. Ao menos eliminava qualquer chance de se falar algum inconveniente. O ronco do motor assemelhava-se a uma sinfonia. Enquanto isso, Laurinha se distraía com a clareira meio aos carvalhos no caminho.
-Chegamos. - Disse ela, com uma voz firme - pela primeira vez em 24h.
Não disse nada. Apenas estacionei e seguimos de mãos atadas até a capela. Era hora de ser forte. Parecíamos dois coitados, com milhares de olhares piedosos em nossa direção. Respirei fundo e entrei: lá estava papai, charmoso como sempre, com um cravo vermelho na lapela de seu paletó, em um caixão de madeira fresca - como sempre quis ter. A aparência pálida não mudava, de jeito nenhum, a eterna imagem do meu pai-herói que guardarei comigo até o resto de meus dias. Meu mundo paralizou naquele momento. A única coisa que conseguia me enjoar era o forte cheiro de café que pairava naquela sala.
Laurinha estava lá, firme e forte segurando a mão do papai, nosso Santo Antônio, guerreiro e fiel. Vovó, quem diria, estava enterrando mais um filho. Tinha a fibra e garra das pessoas vividas, mas lamentava muito, com lágrimas sinceras, a partida do seu moleque Toninho. Ainda parado, perdi a noção do tempo. Só havia percebido, e me incomodado muito, que a única coisa viva dentro daquele caixão era o fino ponteiro de seu relógio; que, por ironia, anunciava o atraso de seu enterro. Minha irmã, por sua vez, o tirou cuidadosamente do pulso gelado e colocou em sua bolsa. Uma última lembrança? Pode ser. Em seguida, pediu silêncio, fez uma profunda e emocionada oração, proferiu um belo discurso, e já não era possível esperar. O carrinho que levava papai até o túmulo tinha suas rodas enferrujadas, fazendo um barulho irritante, aliado às folhas secas de outono, que serviam como um tapete fúnebre. Uma cova funda o esperava, exatamente da maneira que ele queria. Ao som de saudosos aplausos papai se foi. Levantei-me a cabeça. Era hora de partir.
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