quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Mistério de Marioto

Esse é um texto que escrevi para o projeto "Conta aí, parceiro" do Positivo. A proposta era fazer parceria com grandes nomes, como Jairo Bouer e Pedro Bandeira. Eram dados pequenos começos de textos, e você tinha que prosseguir. "O Mistério de Marioto" é um texto que escrevi dando sequência a um trecho de início do Pedro Bandeira.

O MISTÉRIO DE MARIOTO

Eu estava só. No meio daquela multidão, eu me sentia só como de caminhasse pelo deserto, perdida de alguma caravana de camelos. O trânsito arrastava-se aos trancos, congestionado, buzinava, freava bruscamente frente a sinais fechados, avançava sobre as faixas de pedestres... Passantes apressados quase esbarravam em mim, desviavam-se, talvez pensando no pecado que era uma garota como eu cambalear bêbada pela avenida àquela hora da tarde. Mal sabiam eles que eu jamais havia bebido um copo de coisa alguma em toda a minha vida, mas que eu, eu, tão jovem, tinha de... Ah, eu, tão jovem e com uma carga daquelas nas costas!
Procurei aprumar o passo, lutando contra a exaustão e sacudindo a cabeça para afastar a falta de sono. Ah, como a vida de alguém tão importante poderia depender do que fizesse uma garotinha como eu, apenas uma menina do colegial, inexperiente de tudo e... Eu chegaria em tempo?
A carta, já úmida de suor, quase me queimava a palma da mão.
Parecia que o conteúdo que compunha as desordenadas linhas naquele papel realmente estavam pegando fogo. Ou era a minha febre que começara a dar os seus primeiros sinais. O movimento árduo que minhas pálpebras faziam não eram em vão... O sol de fim de tarde emitia um feixe de luz exatamente no centro dos meus olhos. Pelo menos era o que parecia. Já não aguentava mais os barulhos daquela nojenta avenida, que constantemente me faziam revirar as piores lembranças da minha memória. O logradouro informava um lugar onde eu jamais fora antes; pelo menos, não que me lembrasse. Afinal, aquela gigantesca cidade nada mais era do que um emaranhado de ruas com uma pitada generosa de caos urbano. Minhas pernas estavam no ápice do desconforto. Eu tinha como certo a minha inocência. Não havia sido eu. Tudo aquilo era desnecessário. Me consideraria até um prodígio juvenil caso fosse a autora do ato. A sociedade alienada e burra me irritava. Odiava ter que explicar o óbvio. Um andarilho que comia na calçada me explicou como chegava ao meu destino, e assim o fiz. Não tinha noção nenhuma de tempo, mas pelo aumento gradativo das minhas dores musculares, presumo que demorei mais vinte minutos para chegar. O local não condizia em nada com as minhas expectativas. A rua estreita e deserta estava com metade das luzes que vinham dos postes apagadas. Aquele caminho desembocava em uma velha e suja porta. A fiação elétrica estava toda desgastada, e não tive coragem de apertar a campainha. Comuniquei a minha chegada aos berros, mesmo. Não demorou para que os grunhidos da velha escada de madeira começassem a ecoar naquele beco. O ritual de anos continuara o mesmo - agora em novo endereço: a luz de fora era acesa, a cortina da porta era afastada, e o olhar desconfiado analisava quem estava ali. As rugas desta vez estavam bem mais aparentes. O bolero que vinha do interior do casebre fazia contraste com o cheiro podre que impregnava o andar de cima. Logo entrei, pois queria acabar logo com aquilo. Tirei a carta do bolso, que naquela altura estava amassada e molhada de suor, e a entreguei para a Madame, como quem pede alguma satisfação. Nada foi dito. Madame Marioto subiu e me deixou somente com os barulhos das gotas de água quente explodindo na espessa borra de café. O cheiro desagradável que vinha do andar de cima era vagarosamente maquiado com o inconfundível aroma da cafeína. Logo Marioto retornou, para meu desagrado. Não hesitou em espalhar as velhas fotografias em cima da mesa. Eu insistia em dizer que nenhum daqueles eram meus conhecidos.
Ela queria ter certeza da minha afirmação. Tinha de ter certeza. Aliás, não queria que eu sofresse um grande baque. Logo disse que a tal acusação da carta era apenas uma desculpa forjada, pois sabia do meu instinto de defesa e tinha certeza que eu iria brigar para provar o contrário. Minha presença bastava. Não naquele momento. Minha ansiedade era tão grande que acabei mordendo a parte inferior do meu lábio até sangrar. Teria ido embora se a porta não estivesse trancada. Um berro fez com que Madame rapidamente corresse novamente para o segundo andar. Fui junto. Era melhor que não tivesse ido. Parei na metade da escada. O cheiro me impedia de continuar a subir os velhos degraus. Marioto me puxou para junto dela. O rastro de sangue que seguia continuamente da parede em direção ao quarto era espantoso. Um bando de corpos em estado de putrefação me deixou em estado de choque. O estado perfeito para que Marioto me atacasse com um só golpe e me deixasse apodrecendo junto aos outros corpos, que, diferentes do meu, estavam gelados. Só pude escutar berros do lado de fora, os grunhidos da velha escada, a luz sendo acesa, e um corpo ofegante no andar de baixo. O ciclo recomeçara.

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